Economia Comportamental .2

“O homem puramente econômico está de fato próximo de ser um idiota social. A teoria econômica tem se preocupado demais com este tolo racional.”

Amartya Sen

O QUE PARECE JUSTO?

Exemplo 1.
Suponha-se que determinada cerveja de mesma marca, quantidade e conteúdo, seja vendida em dois estabelecimentos diferentes em uma determinada praia – pode ser em uma orla, rua ou até mesmo por vendedores ambulantes -. Um dos estabelecimentos (A) é moderadamente estruturado, ambiente agradável, música de qualidade e bem frequentado. O outro é um bar simplório (B), modesto e sem atrativo aos olhos.

A cerveja é vendida por dois valores diferentes, respectivamente, uma a R$ 7,00 e outra a R$ 4,00. Automaticamente entra em ação o psicológico-social humano e se auto deduz quais dos comércios vendem a cerveja mais cara e barata daquela praia.

O “preço justo” é visualizado pelo consumidor simplesmente pelo valor investido em cada estabelecimento, independente da qualidade final que cada produto se encontra. Ou seja, mesmo que a cerveja do local A esteja mais quente do que a encontrada em B, o preço justo é justificado pelo cliente conforme o valor intrínseco total. A psicologia econômica social vivida em A valoriza a cerveja quente em R$ 3,00.

O cliente se conforma mentalmente com uma despesa superior de R$ 3,00 se confortando que o dinheiro foi bem gasto, apesar de ter pago quase 100% a mais em um único produto.

Conclusão: O indivíduo resiste a pagar o mesmo valor por uma cerveja vendida em um boteco do que por uma vendida em um local mais apresentável, pois na cabeça dele, não é justo que o dono do boteco cobre um preço tão alto pela mesma cerveja.

Exemplo 2.
Uma loja vende guarda-chuvas por R$ 12,00. Nos dias seguintes, há forte previsão de chuvas e a loja aumenta preço para R$ 20,00. Você, como consumidor, acha essa atitude da loja aceitável ou injusta?

Baseado na pesquisa de Thaler, relatada em seu Best Seller “MISBEHAVING – A construção da economia comportamental”, responderam 100 (cem) entrevistados:
Aceitável: 18%
Injusta: 82%

Aumentar os preços nessas situações é exatamente o que a Teoria Econômica diz que deveria acontecer. O indivíduo justifica o preço justo do produto ou serviço baseado em seu conforto psicológico refletindo o contexto social que habita.

“A vida que você salva pode ser a sua.”

Thomas Shelling, Economista Comportamental

O VALOR DE UMA VIDA

E estrutura mental do ser humano quando vislumbra conceitos comportamentais se firma também no julgamento de responsabilidade econômica.

Digamos que uma pessoa necessite de milhares de reais para uma cirurgia que prolongue sua vida por dois (anos) anos. Essa pessoa se encontra em um hospital – seja público ou privado – que faz campanha para arrecadação em doações para a realização desta operação: Logo o hospital receberá uma enxurrada de doações por meio de depósitos, envelopes e até moedinhas de pessoas mais humildes.

Mas se sair uma reportagem dizendo que sem o repasse de verbas públicas ou até mesmo de desvios fiscais – corrupção -, este mesmo hospital está comprometendo seus atendimentos, serviços e podendo ter um aumento quase imperceptível de mortes, pouquíssimas pessoas irão se sensibilizar com o caso do paciente que está à beira da morte.

Conclusão: Os indivíduos se sensibilizam e se sentem responsáveis por salvar uma “vida identificada” exclusivamente por causa do dinheiro. Mas se eximem da responsabilidade de “salvar” aquela vida quando descobrem que a falta de dinheiro é justificada por outro agente (Estado, corrupção ou negligência), conceituando pela reportagem que haverá de uma maneira ou de outra um aumento “quase imperceptível de mortes”.

ENFIM..

O preço justo é arbitrado sempre pelo psicológico do indivíduo considerando o entorno que convive.

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